Petróleo acima de US$ 100 reacende alerta sobre custos, fretes e indústria em Santa Catarina

Isabella Corvera
Isabella Corvera Mundo
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Petróleo acima de US$ 100 reacende alerta sobre custos, fretes e indústria em Santa Catarina

Escalada no Oriente Médio pressiona energia e logística global e pode atingir empresas, consumidores e cadeias produtivas catarinenses.

A volta do petróleo Brent para acima de US$ 100 por barril colocou novamente a economia mundial diante de uma questão que vai muito além do preço dos combustíveis. A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã e os riscos para o transporte marítimo no Oriente Médio elevaram a preocupação com oferta de energia, fretes, inflação e custos industriais. Em 9 de setembro, o Brent fechou a US$ 101,21, no maior nível desde maio, depois de novos ataques a embarcações na região do Estreito de Ormuz. (UOL Notícias)

Para Santa Catarina, o tema merece atenção especial porque o estado possui uma economia fortemente integrada ao comércio internacional e depende de cadeias logísticas que envolvem transporte rodoviário, portos, máquinas, insumos industriais e agroindústria. A questão que começa a ganhar importância para empresas e consumidores é, portanto, quanto tempo uma crise energética internacional pode levar para chegar aos custos locais. A resposta depende da duração do conflito, do comportamento do petróleo e da capacidade das empresas de absorver ou repassar aumentos.

Por que uma guerra no Oriente Médio pode afetar empresas de Santa Catarina?

O principal canal de transmissão é a energia. Quando o petróleo sobe rapidamente, não apenas gasolina e diesel ficam pressionados: transporte de mercadorias, navegação, produção de derivados, embalagens, produtos químicos e diversas etapas industriais podem sofrer aumento de custos. Para uma indústria catarinense que compra matéria-prima de outros estados ou importa componentes, uma elevação simultânea do combustível e do frete pode alterar a estrutura de custos mesmo que o produto final não tenha qualquer relação direta com petróleo.

A situação é particularmente relevante porque Santa Catarina mantém forte atividade industrial e comércio exterior. Dados divulgados pela FIESC mostram que as exportações estaduais chegaram a US$ 1,15 bilhão em agosto, alta de 17,3% sobre o mesmo mês de 2025, enquanto as importações alcançaram US$ 3,17 bilhões. As compras externas de máquinas e equipamentos cresceram 24,4%, sinal de que parte da indústria catarinense continua investindo em modernização e depende de uma cadeia internacional de fornecimento. (FIESC)

O problema, portanto, não está somente no posto de combustível. Uma transportadora pode enfrentar maior custo operacional, enquanto uma indústria pode pagar mais pelo deslocamento de componentes até a fábrica ou pela entrega do produto ao cliente. No comércio exterior, ainda existe o efeito sobre o transporte marítimo e os seguros, principalmente quando rotas estratégicas ficam mais arriscadas. Para empresas do Sul catarinense, inclusive as localizadas em polos industriais como Criciúma e municípios próximos, essas alterações podem aparecer primeiro nos custos logísticos antes de chegar diretamente ao consumidor.

Petróleo caro pode aumentar fretes e pressionar preços em Santa Catarina?

Sim, mas o impacto não ocorre necessariamente de forma imediata ou uniforme. O preço internacional do petróleo influencia os derivados utilizados no transporte, mas existem outros fatores na formação dos preços, como câmbio, tributos, margens, contratos, estoques e políticas de preços. Por isso, uma alta pontual do Brent não significa automaticamente que gasolina, diesel, fretes e produtos industriais subirão na mesma proporção no dia seguinte.

O risco aumenta se o petróleo permanecer elevado por semanas ou meses. O Brasil possui produção relevante de petróleo e, por isso, tem uma proteção maior do que países extremamente dependentes de importações, mas ainda existe exposição a preços internacionais, derivados, logística e mercado cambial. Além disso, o diesel possui importância estratégica para a economia brasileira, já que grande parte do transporte de cargas depende das rodovias. Em um estado industrial e exportador como Santa Catarina, qualquer aumento persistente do frete pode afetar tanto a chegada de insumos quanto a distribuição da produção.

Outro ponto de atenção está nos fertilizantes e em outros insumos importados. A FIESC informou que as importações catarinenses de fertilizantes caíram 56% em agosto em meio a gargalos logísticos relacionados ao Estreito de Ormuz, enquanto as compras de máquinas e equipamentos avançaram. Isso mostra que o conflito internacional já pode produzir efeitos sobre cadeias de suprimentos antes mesmo de uma eventual falta generalizada de produtos. (FIESC)

O que empresas catarinenses podem fazer diante de uma crise energética prolongada?

A primeira resposta tende a ser a diversificação. Empresas que dependem excessivamente de um único fornecedor, mercado consumidor ou rota logística ficam mais vulneráveis quando ocorre uma interrupção internacional. O próprio desempenho recente das exportações de Santa Catarina mostra como diferentes mercados podem compensar parcialmente dificuldades em outros destinos: em agosto, a retomada das vendas de frango para a China e o avanço da carne suína para o Japão ajudaram o estado a registrar crescimento das exportações, apesar da retração das vendas para os Estados Unidos. (FIESC)

Essa lógica também vale para a indústria de Criciúma e do Sul catarinense. Mapear fornecedores alternativos, negociar contratos com diferentes prazos, acompanhar custos de frete e avaliar estoques estratégicos podem reduzir a exposição a choques externos. Para empresas exportadoras, diversificar destinos também pode diminuir a dependência de mercados sujeitos a tarifas, conflitos comerciais ou mudanças regulatórias. Não significa abandonar parceiros tradicionais, mas evitar que uma única rota seja responsável por uma parcela excessiva da receita ou do abastecimento.

No curto prazo, o cenário internacional ainda depende principalmente da duração e da intensidade do conflito no Oriente Médio. A Opep informou em 10 de setembro que mantém sua política de produção para outubro, enquanto o Brent continuava acima de US$ 100 em meio às tensões envolvendo Irã e rotas marítimas estratégicas. (UOL Economia) Caso a instabilidade diminua, parte do prêmio de risco incorporado ao petróleo pode desaparecer; se houver novas interrupções, empresas e consumidores terão de conviver com custos mais elevados por mais tempo.

Para Santa Catarina, o episódio reforça uma tendência que deve permanecer relevante nos próximos anos: competitividade não depende apenas de produzir bem, mas também de ter energia, logística, fornecedores e mercados suficientemente diversificados. O estado conseguiu ampliar suas exportações em agosto mesmo diante das dificuldades impostas pelo comércio internacional, mas o ambiente global continua sujeito a choques simultâneos de energia, tarifas e transporte. Para Criciúma e o Sul catarinense, acompanhar esses movimentos deixou de ser uma preocupação restrita a grandes multinacionais: eles podem influenciar custos industriais, investimentos, empregos, fretes e preços ao longo de toda a economia regional.

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