Projetos públicos e privados ampliam a infraestrutura catarinense e mostram por que logística, inovação e qualificação serão decisivas para o crescimento regional.
Santa Catarina atravessa um período em que investimentos em infraestrutura, indústria e desenvolvimento econômico ganham importância diante de um cenário nacional e internacional mais competitivo. Nos últimos dias, iniciativas envolvendo planejamento municipal, logística, mobilidade e atração de empresas reforçaram uma questão que interessa diretamente ao Sul catarinense: onde estão surgindo as oportunidades capazes de gerar empregos e melhorar a capacidade das cidades de atrair novos negócios? A resposta não está concentrada em um único setor, mas em uma combinação de infraestrutura, qualificação profissional, ambiente empresarial e capacidade de planejamento.
O movimento também ocorre enquanto a indústria catarinense enfrenta um cenário desigual. No primeiro semestre de 2026, a produção industrial de Santa Catarina recuou 1,7% na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da FIESC, embora alguns segmentos tenham apresentado crescimento. (FIESC) Nesse contexto, investimentos deixam de ser apenas números anunciados pelo poder público ou por empresas e passam a representar uma ferramenta para aumentar a produtividade e criar condições para que diferentes regiões, inclusive Criciúma e o Sul, disputem novos empreendimentos.
Por que infraestrutura virou peça central para o crescimento de Santa Catarina?
Uma das principais razões é a necessidade de reduzir custos e aumentar a eficiência das empresas. Uma indústria pode ter mão de obra qualificada e tecnologia, mas ainda perder competitividade se depender de estradas congestionadas, portos pouco eficientes, transporte caro ou conexões logísticas inadequadas. Por isso, investimentos em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e mobilidade urbana produzem efeitos que vão muito além da obra física, pois podem modificar a forma como mercadorias, trabalhadores e serviços circulam pelo território.
A própria agenda estratégica da FIESC mostra o tamanho desse desafio. O levantamento da entidade estima R$ 58,6 bilhões em investimentos em infraestrutura de transporte em Santa Catarina, considerando projetos federais, estaduais, municipais e privados. Desse total, aproximadamente R$ 41,89 bilhões estão relacionados ao modal rodoviário, R$ 9,94 bilhões ao ferroviário, R$ 4,89 bilhões ao aquaviário e valores menores aos segmentos dutoviário e aeroviário. (FIESC)
Para Criciúma e o Sul catarinense, essa discussão é especialmente relevante porque a competitividade regional depende da conexão entre indústria, comércio, serviços e mercados consumidores. O Sul possui atividade industrial diversificada e acesso a estruturas portuárias e aeroportuárias que podem ampliar oportunidades de exportação e distribuição, mas os ganhos dependem de conexões eficientes entre os municípios produtores e esses equipamentos.
Um exemplo recente vem de Imbituba, cuja estrutura portuária aparece entre os ativos considerados estratégicos pelo Estado para ampliar a capacidade logística catarinense. A InvestSC lista o Porto de Imbituba entre as oportunidades de infraestrutura econômica e logística e também mantém projetos relacionados ao aeroporto regional de Jaguaruna. (Invest SC) A proximidade desses equipamentos com o Sul reforça a necessidade de tratar logística como política de desenvolvimento regional, e não apenas como uma questão de transporte.
Como novos investimentos podem chegar ao mercado de trabalho e às empresas?
O efeito mais visível de um investimento costuma ser a geração de empregos durante a implantação, mas os impactos mais importantes podem aparecer posteriormente. Uma nova fábrica, centro de distribuição ou empreendimento de infraestrutura cria demanda por fornecedores, manutenção, transporte, alimentação, serviços especializados e profissionais qualificados. Quando essa cadeia se estabelece localmente, parte maior do valor gerado permanece na região e pode estimular novos negócios.
Santa Catarina já possui programas públicos voltados à atração de investimentos privados. Em março, o Governo do Estado anunciou 45 novos contratos vinculados ao Prodec, Pró-Emprego e TTD 489, envolvendo R$ 2,1 bilhões em investimentos privados e uma projeção de cerca de 8 mil empregos diretos e indiretos até 2030. Segundo o governo, os projetos envolvem 43 empresas de diferentes setores e regiões catarinenses. (Sicos)
O desafio para municípios como Criciúma é transformar a chegada de investimentos em desenvolvimento econômico duradouro. Isso exige mais do que incentivos fiscais ou disponibilidade de terrenos, porque empresas também analisam energia, água, internet, logística, segurança, formação profissional e acesso a fornecedores. Uma cidade que consegue combinar esses elementos aumenta suas chances de atrair empreendimentos de maior valor agregado e, consequentemente, empregos mais especializados.
Nesse cenário, qualificação profissional passa a ter papel estratégico. A indústria catarinense já enfrenta transformações provocadas por automação, inteligência artificial, digitalização e novas exigências ambientais, o que aumenta a necessidade de trabalhadores preparados para operar equipamentos, interpretar dados e atuar em processos mais sofisticados. Para o Sul catarinense, aproximar escolas técnicas, universidades, empresas e programas de capacitação pode ser tão importante quanto construir novas estruturas físicas.
O que Santa Catarina precisa fazer para transformar investimentos em desenvolvimento regional?
Um dos caminhos é planejar os investimentos considerando as características de cada região. Um projeto que funciona na Grande Florianópolis pode não produzir os mesmos resultados no Sul, no Oeste ou no Norte catarinense. Por isso, políticas de desenvolvimento precisam identificar vocações econômicas locais e conectar infraestrutura, educação, inovação e empreendedorismo às necessidades de cada território.
Um exemplo dessa abordagem apareceu recentemente em Camboriú, onde a prefeitura e o Sebrae entregaram um Plano de Desenvolvimento Econômico Municipal construído entre 2025 e 2026 com participação do poder público, empresários, entidades e comunidade. O documento estabelece estratégias para os próximos cinco a dez anos e contempla setores como comércio, turismo, construção civil e tecnologia. (Prefeitura de Camboriú) Embora seja uma iniciativa municipal, o modelo mostra como planejamento econômico pode deixar de depender exclusivamente de decisões pontuais e passar a trabalhar com metas de médio e longo prazo.
Para Criciúma, esse tipo de planejamento pode ser aplicado de maneira integrada ao perfil econômico do Sul. A cidade possui uma base industrial importante, serviços especializados, instituições de ensino e uma localização que permite conexão com outros municípios da Região Carbonífera e do litoral. O potencial, entretanto, depende da capacidade de transformar essas vantagens em projetos concretos, com infraestrutura adequada e formação de profissionais para as novas demandas.
O cenário também exige atenção aos riscos. A produção industrial catarinense apresentou queda no primeiro semestre, e isso mostra que novos investimentos não acontecem automaticamente apenas porque o Estado possui vantagens competitivas. (FIESC) Juros, comércio internacional, custos de energia, tarifas, câmbio e mudanças tecnológicas podem alterar decisões empresariais rapidamente, fazendo com que governos e municípios precisem oferecer ambientes mais previsíveis e preparados.
Nos próximos anos, a tendência é que Santa Catarina dispute investimentos cada vez mais associados a tecnologia, sustentabilidade, logística e produtividade. A própria InvestSC identifica agronegócio, indústria automotiva, tecnologia e inovação e turismo entre os setores estratégicos do Estado. (Invest SC) Para Criciúma e o Sul catarinense, acompanhar essa transformação significa buscar não apenas novos empreendimentos, mas também melhorar as condições para que empresas já instaladas cresçam, inovem e contratem. É dessa combinação entre infraestrutura, qualificação, planejamento e competitividade que pode surgir uma nova etapa de desenvolvimento regional.
