Santa Catarina ocupa uma posição singular no cenário de pagamentos digitais do Brasil, sendo o estado com o menor número de transações realizadas via Pix em 2024. Essa informação pode parecer surpreendente, dado que o Pix é amplamente utilizado em diversas partes do país, mas a análise da Fundação Getúlio Vargas (FGV) revela alguns fatores interessantes que explicam esse comportamento. Embora o estado seja o que menos utiliza o Pix em termos de frequência de transações, ele apresenta a segunda maior média de valores transferidos, o que levanta questões sobre os padrões de uso dessa ferramenta de pagamento no estado.
A pesquisa da FGV apontou que, em média, cada usuário em Santa Catarina realizou 25 transferências mensais via Pix durante o ano de 2024. Esse número é consideravelmente abaixo da média nacional de 32 transações mensais por usuário. Entretanto, ao analisar o valor médio das transferências, Santa Catarina destaca-se com R$ 248,96 por transação, atrás apenas de Mato Grosso. Essa discrepância entre a frequência de uso e o valor das transferências pode indicar que, apesar de menos frequentes, as transações realizadas no estado são, em média, de maior valor, o que pode sugerir um uso do Pix para pagamentos mais significativos, como compras de maior valor ou transferências entre contas de pessoas com maior poder aquisitivo.
O que é curioso é que, embora o estado tenha uma baixa frequência de transações via Pix, o valor médio das transferências ainda é significativamente superior ao de estados como Amazonas, que lidera a lista em número de transações realizadas. Esse contraste pode ser explicado por diferentes padrões de consumo e acessibilidade ao sistema financeiro em cada região. Em estados como o Amazonas, o Pix parece estar integrado ao dia a dia das pessoas, com transações mais frequentes e de valores menores, refletindo um uso mais rotineiro da ferramenta. Em Santa Catarina, por outro lado, o Pix parece ser uma opção mais seletiva, utilizada principalmente para transferências de maior valor, talvez por uma população com um perfil econômico diferente.
A adesão ao Pix em Santa Catarina também é um fator relevante para entender o baixo número de transações. Embora 63% da população brasileira utilize o Pix, no estado catarinense, esse índice é de 60,86%. Isso coloca Santa Catarina abaixo da média nacional, o que pode indicar que uma parte considerável da população ainda não está completamente familiarizada ou confortável com o uso do sistema de pagamentos instantâneos. Esse dado sugere que, embora o Pix esteja disponível, sua adoção ainda não é tão universalizada como em outros estados, o que pode impactar diretamente no número de transações realizadas.
Outro aspecto importante a ser considerado é a desigualdade regional, que influencia diretamente tanto na frequência quanto no valor das transações realizadas via Pix. De acordo com a pesquisa da FGV, usuários de áreas com maior poder aquisitivo tendem a realizar transações de maior valor, enquanto aqueles em regiões de menor renda fazem mais transações, mas de valores menores. Esse padrão é observado em diferentes estados brasileiros, e Santa Catarina não é uma exceção. A diferença de renda e a concentração de riqueza em determinadas regiões do estado podem contribuir para o comportamento observado nas transações via Pix.
Além disso, a região Norte do Brasil, onde o Amazonas se destaca, apresenta uma realidade bem diferente da do Sul, com características de consumo distintas. O estudo revela que estados como o Amazonas realizam mais transações de menor valor, o que pode ser atribuído à inserção do Pix como ferramenta de uso diário, especialmente em contextos onde o valor das compras e transferências tende a ser mais baixo. Já em estados como Santa Catarina, o Pix é usado de maneira mais estratégica, com transações menos frequentes, mas de valores mais altos, refletindo um perfil de consumo mais alinhado a grandes operações financeiras.
O uso do Pix também está diretamente ligado à inclusão financeira. Em regiões onde o sistema bancário tradicional ainda é difícil de acessar ou não está totalmente disseminado, o Pix se torna uma ferramenta vital, promovendo uma maior inclusão de pessoas com menos acesso aos meios tradicionais de pagamento. Contudo, em estados como Santa Catarina, onde a inclusão financeira é mais avançada e as pessoas possuem maior acesso a diversas opções de pagamento, o Pix pode não ser tão central no cotidiano, o que contribui para o número reduzido de transações.
Em última análise, a questão de por que Santa Catarina é o estado com o menor número de transferências via Pix no Brasil está relacionada a uma série de fatores econômicos, sociais e tecnológicos. Embora o valor médio das transferências seja alto, a frequência de uso baixo e a taxa de adesão um pouco abaixo da média nacional indicam que o estado tem um perfil de consumo diferente, com a população utilizando o Pix de maneira mais ponderada e seletiva. Esse comportamento pode ser reflexo de um estado com maior acesso a outros métodos de pagamento e uma diferença no modo como o sistema bancário digital é integrado ao dia a dia das pessoas.
Portanto, é importante observar que, apesar de Santa Catarina ocupar a última posição no ranking de transferências via Pix, seu comportamento em relação ao sistema de pagamentos instantâneos é um reflexo da diversidade do Brasil. Cada estado tem características econômicas e culturais distintas que moldam o uso de novas tecnologias de pagamento, como o Pix. Em Santa Catarina, a popularidade do Pix pode estar apenas começando, e as futuras tendências de uso podem revelar um cenário muito diferente, conforme a adaptação da população a esse meio de pagamento.
Autor: Ivan Kuznetsov
Fonte: Assessoria de Comunicação da Saftec Digital