Economia doméstica ou abuso financeiro? Taiza Tosatt Eleoterio ajuda a diferenciar os dois padrões

Isabella Corvera
Isabella Corvera Notícias
6 Min de leitura
Taiza Tosatt Eleoterio

Do ponto de vista de Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, o abuso financeiro está entre os controles mais difíceis de identificar dentro de um relacionamento, porque muitas vezes se disfarça de organização ou de cuidado com o orçamento familiar. Argumentos aparentemente razoáveis dificultam que a pessoa perceba a gravidade da situação. Como não deixa marcas visíveis, esse tipo de controle costuma ser percebido tardiamente, quando a autonomia já foi bastante reduzida. Saber distinguir uma gestão compartilhada de um controle unilateral é essencial para reconhecer os sinais cedo.

Como esse tipo de controle costuma se instalar?

Em geral, o abuso financeiro disfarçado de economia doméstica começa de forma sutil e quase imperceptível: um dos parceiros assume gradualmente a gestão de todas as contas da casa, justificando essa centralização como uma forma de “organizar melhor” o orçamento familiar diante de supostas dificuldades financeiras do casal. Com o tempo, essa centralização evolui para um controle mais rígido, no qual a outra pessoa passa a precisar justificar cada gasto, por menor que seja, mesmo quando se trata de recursos próprios.

Taiza Tosatt Eleoterio considera que essa transição gradual é justamente o que torna esse padrão tão difícil de perceber enquanto está acontecendo, já que cada etapa, isoladamente, pode parecer razoável aos olhos de quem vive a relação.

Os sinais que diferenciam organização de controle

Vale considerar que nem todo casal que organiza as finanças de forma conjunta está diante de um padrão abusivo. A diferença está, principalmente, na existência de transparência mútua e na possibilidade real de ambas as partes opinarem sobre decisões financeiras que afetam a vida de toda a família.

Como destaca Taiza Tosatt Eleoterio, quando uma das partes é mantida deliberadamente sem acesso a informações básicas sobre contas, investimentos ou dívidas da própria família, ou é impedida de ter qualquer autonomia sobre recursos próprios, como um salário, o quadro muda significativamente, configurando um padrão de controle que vai muito além de uma simples divisão de tarefas domésticas.

O papel da “mesada” como ferramenta de controle

Em alguns relacionamentos, o controle financeiro se manifesta por meio da prática de conceder uma quantia fixa para despesas pessoais, independentemente da renda real da família ou das necessidades específicas da pessoa que recebe esse valor. Essa prática, quando usada de forma unilateral e sem diálogo, reduz significativamente a autonomia financeira de quem a recebe, criando uma relação de dependência que vai além do aspecto puramente prático.

Taiza Tosatt Eleoterio avalia que esse tipo de dinâmica costuma gerar um sentimento de infantilização, já que a pessoa adulta passa a depender de aprovação para gastos básicos, de forma semelhante ao que acontece entre pais e filhos pequenos.

O impacto emocional de não ter autonomia financeira

Além do prejuízo prático, não ter acesso a recursos próprios gera um impacto emocional significativo, incluindo sentimentos de impotência e dependência que se somam a outras formas de controle presentes na relação. Essa combinação costuma tornar o processo de saída ainda mais desafiador, já que a pessoa precisa lidar simultaneamente com questões financeiras práticas e emocionais complexas ao considerar deixar a relação, muitas vezes sem saber, de início, por onde começar a reorganizar a própria vida financeira de forma independente.

Como identificar a inversão de responsabilidade no relacionamento?

Alguns sinais merecem atenção redobrada. A necessidade de apresentar recibos ou justificativas detalhadas para gastos pessoais de pequeno valor é um deles, assim como a ausência de acesso a senhas, extratos ou informações básicas sobre contas bancárias conjuntas. Também merecem atenção o impedimento, direto ou indireto, de manter uma conta bancária própria ou uma fonte de renda independente, as decisões financeiras importantes tomadas unilateralmente, sem qualquer consulta prévia, e a sensação recorrente de ser tratada como incapaz de administrar o próprio dinheiro, mesmo diante de histórico profissional ou financeiro sólido.

Como começar a reconstruir a autonomia financeira?

Para quem identifica esse padrão dentro da própria relação, buscar pequenos passos de independência financeira, mesmo que graduais, costuma ser um ponto de partida importante. Abrir uma conta bancária própria, mesmo que inicialmente movimentada com valores pequenos, entender a própria situação de crédito e débito e buscar orientação sobre como organizar um orçamento pessoal básico são medidas que ajudam a reduzir, pouco a pouco, a dependência financeira construída ao longo dos anos de relação.

Taiza Tosatt Eleoterio pontua que esse processo não precisa, e geralmente não deve, ser feito de uma só vez: trata-se de uma reconstrução gradual de autonomia, que respeita o tempo e as possibilidades reais de cada mulher dentro de sua própria situação.

O primeiro passo para reconhecer o padrão

Taiza Tosatt Eleoterio reforça que reconhecer o abuso financeiro como uma forma legítima de controle, e não apenas como uma questão administrativa do casal, é essencial para que mulheres em situação de vulnerabilidade busquem orientação jurídica e assistência social especializada antes que a dependência financeira se torne um obstáculo ainda maior para a própria autonomia e segurança, tanto da mulher quanto dos filhos que dependem dela.

 

Compartilhe esse artigo