Acordo comercial com Europa pode abrir novos mercados para empresas de Santa Catarina; veja os setores com maior potencial

Isabella Corvera
Isabella Corvera Mundo
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Acordo comercial com Europa pode abrir novos mercados para empresas de Santa Catarina; veja os setores com maior potencial

Tratado entre Mercosul e EFTA amplia oportunidades para a indústria brasileira e pode favorecer empresas catarinenses em meio à instabilidade do comércio mundial.

O comércio internacional entrou em uma nova fase de transformação em 2026, marcada por tarifas, disputas geopolíticas, mudanças nas cadeias de produção e busca por novos mercados. Nesse cenário, um movimento que pode ganhar importância para Santa Catarina é o avanço do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. O Congresso Nacional brasileiro aprovou o tratado em junho, enquanto os procedimentos para sua entrada em vigor avançam. (Mercosul)

A relevância do acordo vai além da diplomacia. Para uma economia como a catarinense, que possui forte presença industrial, agroindustrial e exportadora, a abertura de mercados pode representar uma alternativa diante das dificuldades enfrentadas por empresas que dependem de destinos específicos. O próprio setor produtivo de Santa Catarina vem defendendo a diversificação comercial como estratégia para reduzir a exposição às mudanças tarifárias dos Estados Unidos. (FIESC)

Por que o acordo Mercosul-EFTA pode ser importante para Santa Catarina

O acordo conecta o Mercosul a quatro países europeus de alto poder aquisitivo e estabelece condições comerciais mais favoráveis para uma ampla variedade de produtos. Segundo o governo brasileiro, a EFTA eliminará 100% das tarifas de importação para os setores industrial e pesqueiro quando o tratado entrar em vigor, enquanto, considerando os produtos agrícolas e industriais, o acesso em livre comércio poderá alcançar quase 99% do valor exportado pelo Brasil para o bloco. (Serviços e Informações do Brasil)

Esse desenho interessa particularmente a Santa Catarina porque a economia estadual possui uma pauta exportadora diversificada, que combina alimentos, produtos industriais, motores elétricos, madeira, máquinas e componentes. Dados compilados pelo Observatório da FIESC mostram que os Estados Unidos, a China, o México, a Argentina e o Japão estão entre os principais destinos das exportações catarinenses, revelando a importância de manter diferentes mercados para reduzir riscos comerciais. (Observatório FIESC)

Na prática, a oportunidade não significa que todas as empresas catarinenses começarão a exportar imediatamente para Suíça, Noruega, Islândia ou Liechtenstein. O benefício tende a aparecer gradualmente, à medida que fabricantes identifiquem compradores, adequem produtos, cumpram regras de origem, obtenham certificações e construam canais de distribuição. Para pequenas e médias empresas de Criciúma e de outras cidades do Sul catarinense, esse processo pode estimular a internacionalização e incentivar investimentos em produtividade, qualidade e inovação.

A movimentação ocorre em um momento particularmente estratégico. A FIESC informou recentemente que o acordo Mercosul-EFTA pode favorecer a indústria catarinense e destacou que o tratado prevê isenção tarifária para cerca de 97% das transações de bens do Brasil com o bloco, além de reduções graduais para outros produtos. (FIESC)

Quais produtos catarinenses podem ganhar espaço no mercado europeu

Entre os segmentos com potencial estão aqueles que já possuem capacidade exportadora e experiência em mercados internacionais. O acordo contempla oportunidades para carnes bovina, de aves e suína, milho, mel, café, frutas, sucos e outros produtos agrícolas, além de estabelecer ampla abertura para bens industriais. Para Santa Catarina, isso coloca a agroindústria e a indústria de transformação entre as atividades que podem acompanhar de perto a implementação do tratado. (Serviços e Informações do Brasil)

A cadeia de proteínas é especialmente relevante porque Santa Catarina possui forte participação no comércio internacional de carnes. A diversificação geográfica pode ajudar empresas a reduzir a dependência de poucos compradores e distribuir melhor os riscos provocados por barreiras sanitárias, alterações cambiais, tarifas ou mudanças na demanda. Essa estratégia já aparece nos dados de 2026: a FIESC informou que as exportações catarinenses cresceram 4,3% no primeiro semestre, chegando a US$ 6,13 bilhões, mesmo com a retração das vendas para os Estados Unidos. (FIESC)

O setor madeireiro, os fabricantes de motores elétricos, fornecedores de componentes industriais e empresas ligadas à cadeia metalmecânica também podem observar oportunidades. A questão central será a competitividade, pois entrar em um mercado de maior poder aquisitivo exige mais do que vantagem tarifária: preço, qualidade, prazo de entrega, rastreabilidade, sustentabilidade e capacidade de atendimento precisam estar alinhados.

Para empresas de Criciúma, esse cenário pode ser especialmente relevante pela presença regional de indústrias, fornecedores especializados e negócios ligados à transformação. A expansão das exportações também pode produzir efeitos indiretos sobre transportadoras, operadores logísticos, serviços especializados, tecnologia, comércio exterior e formação profissional. Assim, um acordo internacional pode repercutir muito além da empresa que efetivamente realiza o embarque.

Esse potencial, porém, não elimina os desafios. A EFTA possui mercados altamente exigentes, e o acordo inclui regras de origem, padrões técnicos, propriedade intelectual, compras governamentais, investimentos e medidas relacionadas ao desenvolvimento sustentável. (European Free Trade Association (EFTA))

O que muda para empresas catarinenses diante da nova disputa comercial global

A importância do acordo fica ainda maior quando analisada em conjunto com a atual reorganização do comércio mundial. A UNCTAD estima que o comércio global de mercadorias alcançou aproximadamente US$ 13,7 trilhões no primeiro semestre de 2026, com crescimento de 12,5% em relação ao mesmo período de 2025. Entretanto, parte desse avanço veio de preços mais elevados, enquanto tensões geopolíticas e custos de energia e logística continuam pressionando empresas. (UNCTAD)

Santa Catarina está diretamente exposta a esse ambiente porque depende de portos, cadeias industriais e mercados externos. Ao mesmo tempo em que surgem novas oportunidades, as tarifas americanas já provocaram impactos importantes: segundo a Epagri/Cepa, as exportações catarinenses para os Estados Unidos tiveram queda de 54% no faturamento no primeiro semestre de 2026, enquanto as exportações totais do agronegócio estadual cresceram 2%, sustentadas principalmente pela demanda asiática. (Observatório Agro Catarinense)

Esse contraste ajuda a entender por que diversificar destinos deixou de ser apenas uma estratégia de crescimento e passou a ser uma medida de proteção. Uma empresa concentrada em um único mercado fica mais vulnerável quando uma decisão política ou comercial altera repentinamente as condições de acesso. Já uma companhia que trabalha com diferentes países pode redistribuir vendas, adaptar produtos e reduzir parcialmente o impacto de uma barreira específica.

O próximo passo será a implementação efetiva do acordo. O governo brasileiro registra que o tratado foi assinado em setembro de 2025 e que o processo de ratificação avançou em 2026; documentos oficiais indicam previsão de entrada em vigor internacional em 1º de outubro de 2026, conforme as condições estabelecidas pelo próprio acordo. (Serviços e Informações do Brasil)

Para Santa Catarina, os meses anteriores à entrada em vigor podem ser tão importantes quanto a própria redução tarifária. Empresas interessadas terão de estudar os mercados da EFTA, identificar compradores, calcular custos logísticos, verificar regras de origem e avaliar exigências técnicas antes de disputar espaço. Em Criciúma e no Sul catarinense, esse movimento pode estimular uma nova etapa de internacionalização industrial, na qual inovação, produtividade e diversificação comercial serão decisivas para transformar uma mudança no comércio mundial em oportunidade regional.

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